Deborah Vier Fischer

Parto de uma observação. Observação de alunos brincando de pega-pega em um espaço público da cidade, durante uma saída de estudos promovida pela escola. Olho de fora, presença e ausência, acompanhamento e registro.

Vejo alunos do 5º ano. Uma criança cadeirante.

Espera aí! Brincadeira de pega-pega entre alunos e um deles é cadeirante? Sim, estamos falando de inclusão e, enquanto falamos sobre isso, a seguinte cena se desenha:

Alunos correndo e se divertindo com a velha e boa brincadeira de pega-pega. A criança cadeirante dirige habilidosamente sua cadeira, em busca de, na sua vez, pegar alguém ou ser pega, mesmo que isso demore um pouco e que o suor do rosto dê os primeiros sinais de exaustão. Os colegas, por sua vez, ao verem o seu movimento e desejo de se integrar à brincadeira, “inventam”, talvez com a mesma habilidade de quem manuseia o seu meio de locomoção, um modo dela participar: toda a vez que essa criança for a pegadora, o jogo muda de ritmo e a turma se desloca em “câmera lenta”, isso para que ela tenha mais chances de pegá-los, já que cansa mais rápido que eles, pelo peso da cadeira e os movimentos necessários para dirigi-la, com manobras, às vezes, até radicais, para se aproximar e encostar neles.

Indescritível a reação de alegria dessa criança que, provavelmente, em outra situação, estaria “à margem” da brincadeira, olhando de canto, isolada, parada, já que suas pernas não lhe respondem do mesmo modo que as demais pernas que transitam nesse espaço, já que perderam sua função “natural” e precisam de ajuda mecânica para cumprir sua principal função: deslocar-se.

Indescritível a tranquilidade e a disposição dos colegas ao gritarem, volta e meia: “Opa! Câmera lenta!”

E, lá pelas tantas, após diversas idas e vindas, entre anúncios de “peguei” e “tu que pega”, ouve-se a voz da criança, que estaciona sua cadeira na sombra e anuncia, secando o suor do rosto com as mãos: “cansei… de tanto brincar!”

Sim, isso é inclusão. Sim, isso é viver junto. Sim, isso é infância, independente de limitações físicas ou cognitivas, privações sociais ou intelectuais. Isso é alteridade, distender e alongar o tempo de ser criança, em que o corpo não tem divisões, nem privilégios, sem vestígios sobre o que falta ou lhe faz falta, somente travessias, experiências.

Então, não mais está em jogo a incapacidade do corpo, mas as suas possibilidades, não mais a visão humanista de normalidade/anormalidade, mas a escuta à diferença, o sim à diferença.

Skliar nos brinda com uma frase que encerra esta breve escrita, com o desejo de que o ponto final seja somente uma marca no papel, e que as ideias sigam fundando mundos, ampliando caminhos e rompendo barreiras:

“a tarefa de estar entre crianças consiste em fazer durar a infância todo o tempo que for possível”. (SKLIAR, Carlos. Desobedecer a linguagem: educar. Belo Horizonte: Autêntica, 2014, p. 178.)

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11 comentários sobre “Sim, estamos falando de inclusão!

    • 19 de maio de 2016 em 16:58
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      Obrigada, Débora. É tão verdadeira essa cena que esteve registrada em meu caderninho de anotações durante algum tempo até virar esse artigo. Abraço
      Deborah

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  • 14 de maio de 2016 em 02:16
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    Muito lindo! E mais lindo é ver uma escola assim, apoiando a inclusão ♥

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    • 19 de maio de 2016 em 16:59
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      Com certeza, Ingrid, é bom demais ver e acreditar que é possível a diferença ser considerada e valorizada na educação. Abraço
      Deborah

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  • 15 de maio de 2016 em 12:37
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    É assim que, nós adultos, devemos ver e fazer a inclusão… Como as crianças, que acostumadas com colegas ditos (pelos adultos) ” limitados”, brincam sem limitações pois para elas a vida não tem limites, basta querer!

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    • 19 de maio de 2016 em 17:02
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      Muito certo isso, Lizi, tudo depende apenas do modo como olhamos para as questões e de como elas passam a nos afetar ou não. Faz toda a diferença entender que somos iguais na diferença e daí não há mesmo limites. Abraço
      Deborah

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  • 19 de maio de 2016 em 08:44
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    Que texto bacana, Débora! Antes mesmo da reflexão sobre o tema da inclusão, surge o olhar sensível de quem lê a cena e aponta para a possibilidade de análise sobre o assunto, a partir da situação.

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    • 19 de maio de 2016 em 17:04
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      Obrigada Márcia, de fato esse texto foi vivido e narrado muito antes de se tornar marcas no papel. Fico muito feliz com teu retorno, grande abraço
      Deborah

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  • 4 de julho de 2016 em 15:08
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    Lindo texto, é possível imaginar a cena.

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    • 4 de julho de 2016 em 15:35
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      Obrigada pelo retorno. De fato, a cena ficou em minha memória tão fortemente, que precisou de mais espaço, precisou da escrita para dar vazão.
      Abraço.

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  • 6 de julho de 2016 em 23:12
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    Obrigada pelo retorno. Aproveito para informar que não se trata de um curso, mas de um relato de algo vivido pela escola durante uma saída de estudos, que julguei importante registrar.

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