Celso Gutfreind

Volta e meia, confundem educação e obediência. Até a literatura já o confundiu: nas histórias de Heinrich Hoffmann, por exemplo, as crianças desobedientes encontram um fim trágico. Nos contos tradicionais, é quase isto, mas elas corrigem em tempo, e o final fica feliz.

Mas educação e obediência são diferentes e opostas. Claro que a boa educação é fundamental, seja lá o que isto significa. Para os humanos, significou a civilização. O ponto central não é domar instintos ou respeitar leis como a do parricídio e a do incesto. Seríamos animais, no pior sentido do termo, se não fôssemos educados.

Todavia Einstein, da Vinci, Steve Jobs e Bill Gates foram alunos-problema. Questionadores. Mal educados.

Se a genialidade ainda não é o nosso tema, já é genial ter a liberdade de pensar com liberdade. Guevara e Trotsky não eram meninos bonzinhos. Nem Rosa Luxemburgo nem Joana d’arc. Nem Jean Genet, William Burroughs, Salvador Dali, nem Aretino ou Curzio Malaparte. E nem Drummond, Bandeira, Quintana. Ou Georg Trakl.

Difícil pensar que o desafio maior da criatividade é romper. E o dos pais, tornarem-se dispensáveis. Dos professores, também. E dos terapeutas e demais cuidadores da saúde e da educação.

Distorcemos esta ideia por vaidade ou qualquer outro aspecto que me escapa no momento. E tudo nos escapa, inclusive os filhos. Temos a tendência de nos mostrarmos imprescindíveis para eles, para os alunos e para os pacientes. Claro que o fomos, mas, se exercemos bem a nossa tarefa, “ser imprescindível” durou pouco; o tempo ínfimo – na espécie humana, um pouquinho mais – de os levarmos a poder pensar sozinhos e, a partir daí, questionar o que estamos fazendo. Isto de longe significa quebra de autoridade, hierarquia, diferenças, aspectos importantes para a vida civilizada. Mas se significar obediência no sentido de subserviência, a vida civilizada corre o risco de tornar-se menos criativa do que a animal.

Criar é preciso. Afinal, educar ou cuidar é criar problemas. Fazer bagunça, permiti-la, topar confusões, “anormalidades”. Neste sentido e tantos outros, são revolucionários, subversivos, não é tarefa para reacionários nem pelegos. Trata-se de inventar a própria armadilha, verdadeiro tiro pela culatra. Carece chegar a poder, destituído de poder, ser questionado pelo filho, pelo aluno, pelo paciente. Mais até, ser desmascarado quando nos mostram que podem pensar melhor, sentir melhor e, mesmo, fazer. É gigantesco e claro o que não fizemos.

Até o dia em que a galera tope com filhos e alunos que também façam melhor do que eles e, aí sim, possam se dar conta do quanto acertaram ao toparem acolher liberdades que dão trabalho e doem. Mas, justo aí, confirmam que a tarefa foi bem feita, e o encontro foi amado o suficiente a ponto de separar-se em busca de novos encontros.

Nesta hora, a criança crescida atenderá aquele pedido do Chico e do Toquinho de não esquecer seus pais num quanto qualquer.

Coração e memória não é qualquer canto.

(*) Publicado em A Dança das Palavras – Poesia e Narrativa para Pais e Professores, POA: Ed. Artes e Ofícios, 2012.

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