Celso Gutfreind

“E mesmo o pedante mais insípido brinca, sem o saber, de maneira pueril, não infantil, brinca ao máximo quando é pedante ao máximo”. (Walter Benjamim)

Brincar não é brincadeira. Mas que brincadeira é esta? Logo a contaremos. Brincando, brincando, o texto é sério. E técnico. Trabalhando com famílias e crianças, aprendemos a importância de brincar. Pais que brincam com seus filhos não estão apenas sendo pais. Promovem saúde mental, na prevenção e no tratamento.

No princípio, era o bebê. Para sobreviver precisou ser atendido em suas necessidades básicas como a alimentação. Verdade? Em parte. Na outra parte, precisou ser olhado, tocado, querido. Para chegar ao todo. Estamos falando de afeto, conteúdo principal. Mas o conteúdo precisa encontrar a forma lúdica de repercutir. Ou seja, é preciso brincar. Olhar brincando, trocar (fraldas) brincando, alimentar brincando, cantar e contar, brincadeiras. Todas baratas, podendo ser realizadas conforme a intuição de cada mãe e pai. Importa brincar, essência da linguagem infantil. Assim, o bebê se apega a seus pais e desenvolve uma base segura. Para desapegar-se e ir ao mundo. Para sempre.

O bebê cresce, e a vida não é brincadeira. Ele precisa agora separar-se de seus cuidadores, conquistar autonomia. O psicanalista D. W. Winnicott mostrou que um processo sério como este necessita de… Brincar. Nele mora boa parte da saúde mental ulterior, capacidade de seguir adiante com liberdade, base de uma vida digna.

Aí o bebê vira criança, pode ir ao banheiro, vestir-se sozinho, só não pode parar de brincar. É brincando que se expressa, quer dizer, se elabora. Constrói, dentro de si, o espaço que o psicanalista E. Pavlovsky chamou de lúdico. Em outras palavras, a cada brincadeira, a criança amplia a capacidade de imaginar o que pode ser. Ela agora inventa o que é. Um dia, isto foi brinquedo; com o tempo, torna-se uma reserva emocional de que poderá dispor para enfrentar as dificuldades da vida e não adoecer.

A criança cresce, mas, no fundo, não perde a lembrança de todo o tempo que seus pais perderam ao brincar com ela. E ela, com seus amigos. Alimentado do tempo perdido, o adulto ganha a capacidade de trabalhar e amar, brincadeiras disfarçadas.

Às vezes até escreve textos meio sérios, mas repletos de palavras brincando.

 

(*) Do livro A Dança das palavras – poesia narrativa para Pais e Professores, Ed. Artes e Ofícios, 2012, págs. 58 e 59.