Rubem Penz

Um dos mais constantes vícios de escrita do meio virtual é o abuso na grafia de pontos de exclamação. Talvez por intuir ser muito fraca a palavra escrita em mensagens instantâneas, consequência do débil suporte, subimos o tom do que deveria ser apenas dito, e ponto. Porém, e por uma questão de diluição, se tudo exclamamos, isso é o mesmo que deixar de exclamar. (Observação: daí veio a moda de três, cinco, dez pontos de exclamação. Nesse ritmo, as frases, para terem algum efeito, terão mais pontos do que palavras e ideias, né?)

Lembrei disso quando li uma matéria de jornal. Ela se referia a uma pesquisa feita em Santa Cruz do Sul.  Na manchete, a informação de que 63% dos estudantes entrevistados responderam já ter sofrido bullying. No decorrer da reportagem, exaltou-se a importância da prevenção e conscientização de alunos, mestres e professores sobre o tema, a recomposição do Comitê Municipal Antibullying e a campanha “Bullying não tem Graça”. Atônito, tive que persistir até as últimas linhas para ler a informação mais importante: a pesquisa não apresentava metodologia científica e que os dados “podem trazer discrepâncias”, segundo reconhece.

Compreendo e comemoro todas as iniciativas que buscam iluminar este tema o qual, certamente, assombra mães, pais, professores e alunos. Porém, o começo da conversa deve ser o reconhecimento claro do que se trata. O percentual evidenciado na matéria, e pauta da campanha, é claramente falso. Isto é, quem respondeu as questões desconhece o que é bullying, confundido, por exemplo, com outros conceitos tais como piadas, vexames ou mesmo agressões. Eles igualmente incomodam, devem ser (re)mediados e evitados. Mas não alcançam, necessariamente, a dimensão e a perversidade do bullying.

Um dos maiores desserviços que se pode prestar à causa, qualquer causa, é, justamente, mal informar sobre ela. Tanto como o uso constante de pontos de exclamação dilui sua eficácia, o faz o uso indiscriminado do termo “bullying”. E ninguém deseja isso. O mais sorrateiramente perigoso é, pela banalização do termo, uma genuína vítima estar em solitário sofrimento agora, calada (como, aliás, costuma ser a regra) e passando despercebida no auê. Até aqui, grafei um só ponto de exclamação no texto inteiro na esperança de ser compreendido em meu alerta. Talvez válida, talvez vã.