Rubem Penz

Peço licença para contar uma história antiga, lá da primeira metade do século passado. Nela, havia um menino que competia em uma prova de hipismo e, sem dúvida, era uma espécie de azarão – alguém com remotas chances de pódio. Foi só e, numa visada, constatou aumentar ainda mais sua solidão, pois não estavam na plateia nem seu pai, nem sua mãe, irmãos, ninguém da família. E, para a surpresa de todos, sagrou-se vencedor. O troféu, guardado feito uma joia, ainda está lá na outrora (para sempre?) casa dele. Nunca foi exposto – esteve sempre dentro de um armário fechado, com prateleiras, daqueles em que no passado se guardavam enciclopédias.

O menino era o meu pai.

Contou para nós essa história com mais e com menos detalhes várias vezes, e sempre afundava em silêncio logo depois. Um silêncio de palmas, de abraços, de sorrisos não recebidos. Quer dizer, houve público e apupos, teve cumprimentos e muita alegria. Mas nada disso foi testemunhado por quem importava mais. Um descuido familiar e a vitória, cuja face parece ser apenas capaz de significar êxito, se transformou em dor para sentir em uma vida inteira. Não, não havia ninguém viajando, em outro compromisso inadiável, ocupadíssimo. Aconteceu algo bem menos glamoroso, um dar-de-ombros.

Relembro isso para enaltecer todos os sacrifícios que fazemos para acompanhar as atividades escolares e extraescolares dos filhos – sim, é importante para eles. Muito menos pelo que ganham – apoio, companhia, importância –, muito mais pelo que possa vir a significar a ausência. A infância termina e, depois, o que deixamos para trás fica para sempre. Por outro lado, é injusto condenar eventuais faltas. Longe de mim! O que sinto é a necessidade de elas serem explicadas muito claramente, detalhando os motivos – e nenhum deles deve ser uma remota chance de vitória (quando houver competição) ou a pouca relevância da ocasião (medida por qual régua?).

Em tempos de famílias fracionadas, sobe ainda mais a seriedade do estar perto em momentos especiais. Pode até parecer clichê – acho mesmo que é –, porém, na visada que a criança faz numa plateia, a presença dos afetos é mais do que estar presente: é estar futuro.