Rubem Penz

 

Eis um tempo verbal muito pouco indicado quando estamos diante da necessidade de educar alguém. Seja no trato entre pais e filhos, entre professores e pais ou crianças e professores, as ordens, as combinações e os diagnósticos devem, tanto quanto o possível, evitá-lo. Ele pode até parecer educado, suave, pouco impositivo. O problema é a incerteza que ele carrega em seu DNA. Vejamos:

A partir de agora, a senhora estaria mais atenta aos horários de entrada e saída do seu filho?

Poderia deixar o colega utilizar o brinquedo, também?

Filha, seria muito pedir que desligasse o tablet e fosse dormir?

Estaria eu, neste momento, radicalizando, ou as perguntas acima deixam uma enorme margem para um “não” quase implícito? Uma porta de saída para que a orientação seja descumprida por absoluta falta de convicção? Livres do futuro do pretérito, as mesmas questões mudam de contorno:

A partir de agora a senhora estará mais atenta aos horários de entrada e saída do seu filho?

Pode deixar o colega utilizar o brinquedo, também?

Filha, é muito pedir que desligue o tablet e vá dormir?

Se nas perguntas já sentimos diferença, muito mais explícita ainda é a coisa toda nas afirmações. Sigamos nos exemplos:

Agindo dessa forma, a senhora estaria fortalecendo a noção de responsabilidade da criança.

O colega teria o mesmo direito de brincar que você.

Assim, você estaria mais descansada e não teria tanto sono amanhã pela manhã.

Parecemos pisar em ovos. As convicções surgem enfraquecidas e quase se desculpando. Ah, como o quadro muda de feição quando abandonamos o delicado futuro do pretérito:

Agindo dessa forma, a senhora estará fortalecendo a noção de responsabilidade da criança.

O colega tem o mesmo direito de brincar que você.

Assim, você estará mais descansada e não terá tanto sono amanhã pela manhã.

Longe de mim reforçar um caráter impositivo, ditatorial. O problema é que, sem convicção, os comandos e as combinações carecem de estrutura. Este é o caso em que a utilização do futuro do pretérito apenas atrapalharia a fronteira entre autoridade e autoritarismo. Atrapalharia, não: atrapalhará!