Andréa Paim

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Há muito soube que receitas não combinam com educação. Falo das receitas prontas, as quais realmente em nada se aproximam da prática pedagógica. Mas receitas especiais, que dão margem para que cada cozinheiro interprete e faça do seu jeito, têm o seu valor. Aquelas receitas em que encontramos a indicação: uma pitada, a gosto… São dessas receitas que trato a seguir.

  1. Turma nova. Recebo a lista com os variados ingredientes. Um deles é extremamente novo para as minhas panelas. Já ouvi falar, claro: pesquisei e li muito sobre ele. Procurei cozinheiros mais experientes atrás de orientações que me apoiassem. Uma criança que falava com olhos. E que olhos. Dizia mais do que muitas bocas que conheço. Encantamento único. Vivência inexplicável. Não me contentei com pitadas. Criei algumas receitas em que tal ingrediente foi o principal. Que delícia! Muitas lembranças.
  1. Nova lista de ingredientes. Novas possibilidades. Olho atentamente a lista e percebo um mais apimentado. Vou ter que criar receitas mais picantes, logo eu que sou agridoce. Nossa! E veio em grande quantidade. Novamente procuro cozinheiros mais experientes, hábeis em temperos: preciso de dicas e segredos sobre ele. Mas sei que a pitada nova será por minha conta. É um aluno que fala com o corpo! Fico feliz por termos algo em comum.

Durante as tardes vou fazendo minhas combinações de ingredientes. Algumas dão certo, e ficam saborosas. Outras, pegam no fundo da panela, e é preciso abrir as janelas para que a fumaça possa sair sem nos intoxicarmos. Seu corpo fala muito, e conta coisas que me desagradam. Bate. Empurra. Grita. Pede ajuda sem perceber. Quando o caldo entorna é preciso chamar apoio, fico muito mobilizada e chateada.

Que pacote difícil de abrir! Lembro-me dos “apertos” que passei para abrir pacotes de Pastelina, e a chuva que produzi ao conseguir. Parece que é bem isso que estamos vivendo. Faço força com as mãos para abrir. Coloco os dentes. Estou a espera que ele abra, mesmo que salte vários pedacinhos pelo chão. Vou juntá-los um a um, assoprar e saborear.

Às vezes, chego na despensa e não encontro este ingrediente. Penso que naquele dia poderei fazer as receitas as quais estava mais acostumada. Me sinto um pouco culpada em pensar isso. Preparo tudo. O caldo fica ótimo. Todos provam. Eu também. O gosto é maravilhoso, mas sei que falta algo. Aquela pimenta daria um toque especial.

Tem dias que levo um pedacinho das minhas produções apimentadas para a coordenadora. Ela prova, saboreia e sugere: Quem sabe descobrimos algo sobre a matéria prima? Ou sobre o armazenamento antes de chegar em nossas mãos? Podemos tentar, mas existem pessoas que não revelam seus segredos. Precisaremos descobrir experimentando.

Lembro de 2010 e busco os olhos deste corpo tão ativo. Eles fogem. Parece que percebem que aprendi a ouvi-los. Quando os encontros, vejo ao fundo solidão. Não consigo que escute que estou aqui. Que não está sozinho.

E é assim que nossos dias vão passando – combinando os ingredientes que tenho em busca de novas receitas. Quero cozinhar algo como as receitas de avó, as que só os netos sabem o quanto valem. Quero descobrir aquelas receitas que, apenas ao olhar e cheirar, sentiremos o sabor. Aquela em que o gosto fica guardado na memória. Quem sabe um agridoce apimentado?

 

(*) Texto de junho de 2011, a partir de provocações do escritor Rubem Penz, em oficina com a equipe de professoras da Projeto.