Jéssica Mittmann

A cada dia que passa, observo com mais atenção os comentários das crianças, especialmente dos meus filhos e alunos. Certa vez, ao sair do trabalho e ir para o carro, ao término do dia, pedi para meus pequenos se agilizarem ao entrar nele. Os dois me perguntaram por quê. Respondi que era perigoso. O mais velho, mais consciente de nossa realidade, disse que poderia vir algum bandido. Já a mais nova, dentro de toda a beleza de sua idade, disse que poderiam aparecer lobos. Sabe o lobo dos Três Porquinhos e da Chapeuzinho Vermelho? Esse mesmo.

O assunto medo, de vez em quando, aparece, em diferentes situações. Momentos da rotina de casa ou hora de ler o livro retirado da biblioteca. As noites também são momentos propícios. Percebi que esses medos variam muito, não só com a faixa etária, mas, especialmente, com as particularidades de cada um. Já observei uma menina, que, ao mesmo tempo que sobe em árvores de grandes alturas, tem medo de insetos. Conversei com adultos com medo de animais com penas ou de altura. Eu mesma, a partir de vivências, começo a ficar bem preocupada com a mudança de tempo anunciando temporal.

Esse olhar foi sendo aguçado aos poucos. E, acredito eu, teve como disparador uma experiência em particular.

Tudo começou em um início de ano, numa 1ª série (atualmente chamada de 1º ano). Eu, a professora, e eles, os alunos, todos ansiosos, chegando. Momento de se conhecer, se reencontrar, criar conexões, se entrosar. Todos vieram falantes e alegres. Ele chegou receoso. Mantive-me observadora. Num primeiro momento com os familiares ele não quis se apresentar, nem mostrar sua primeira produção. Compreensão minha, aceitação.

Andamento das atividades, brincadeiras e despedida, breve, para o dia seguinte. Novos momentos chegaram para ficarmos juntos, em roda. Ele não queria se aproximar, resistia a dividir o espaço com os outros, olhava para os lados, virava de costas, ficava na cadeira. Aos poucos, com convites e conversas, ele experimentava, mas sem se comprometer.

Alguns dias se passaram e, em certos momentos, principalmente no pátio, percebi que algo ocorria. Calça molhada. Vergonha. Sim, o xixi vazava. Conversamos e passei a observar mais, convidar para ir ao banheiro. Descobri que um medo existia e, ali, residia. Vieram os pedidos dele para eu acompanhá-lo ao banheiro, seguidos de olhos amedrontados para conferir se eu estava ali, próxima. “Não me deixe sozinho! Não conte para ninguém!” Parceria estabelecida e estratégias traçadas. Acompanhá-lo até a porta, depois um pouco mais afastada, combinar com a turma de irem ao banheiro em duplas, buscar parcerias de iguais.

A roupa molhada foi desaparecendo, as idas ao banheiro seguiram acompanhadas e o segredo mantido no silêncio do olhar.

As rodas foram ficando mais tranquilas, com maior participação e interesse dele.

Um dia, enquanto trabalhávamos a obra de um autor, foi contada uma história que falava sobre medos. A conversa iniciou. Assunto em pauta. Observações e comentários diversos. Até que, em um momento de sinceridade e especialmente de confiança, eis que surge, de parte dele, a fala mais importante daqueles tempos: “Tenho medo de ir ao banheiro sozinho”.

A compreensão se instalou e o alívio por conseguir abrir-se foi visível em suas atitudes. E mais, em sua face. Os colegas e eu nos tornávamos parte de sua vida e sujeitos parceiros para compartilhar de seus gostos e inseguranças. O que era medo, secreto, guardado, virou um exemplo, dentre tantos outros, de situações que ocorrem com qualquer um, em qualquer idade. O receio e a insegurança deram lugar à espontaneidade e à tranquilidade.

Dois anos depois, quando cruzava com ele pelos corredores da escola, ouvia um “Oi, Jéssica!”, sincero e carinhoso, fruto da construção de compreensão e de apoio que fizeram toda a diferença. Para ambos.