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Ana Julia Poersch (Professora da Ed. Infantil)

Não são apenas os alunos e as alunas que sentem aquele friozinho na barriga no retorno às aulas escolares. Como professora, eu também o sinto há muitos anos, desde a época de criança até hoje. Os primeiros dias de aula são repletos de informações novas, de sentimentos contraditórios, de movimentos, olhares, cheiros, sorrisos e choros a serem interpretados. Para nós, professoras e professores, são entre quinze e vinte jeitinhos novos para conhecermos, um bem diferente do outro, com personalidades e gostos particulares. E a gente sempre quer acolher muito bem e dar conta de tudo: crianças, questões pedagógicas e famílias.

Os primeiros dias de aula e esse tal “friozinho” na barriga sempre me recordam os tempos de infância. Cresci em uma cidade germânica do interior do estado e com três anos de idade meus pais optaram por me matricular na escola. Confesso que essa primeira experiência escolar me traz lembranças pouco agradáveis. Lembro-me claramente da minha primeira professora, da fisionomia dela, do jeito, da voz. Ela gritava muito e parecia ser muito brava. Não lembro de um carinho ou de um colo. Talvez até tenham acontecido, mas eu simplesmente não me recordo. Apenas lembro dos gritos com o grupo de alunos. Chorei um bocado nos primeiros dias. Dores de barriga, febres e outros sintomas fizeram meus pais me buscarem mais cedo.

Hoje consigo compreender que toda essa dificuldade em me adaptar também esteve aliada à insegurança dos meus pais que, embora soubessem da enorme importância de eu ingressar na escola, fazer novas amizades, crescer, aprender e me desenvolver, não conseguiam me transmitir confiança no momento da despedida, por questões deles, as quais eu não questiono, apenas entendo. Contudo, tento usar essa minha experiência escolar e as lembranças que guardo em relação à professora, para que eu consiga fazer diferente com os meus alunos e minhas alunas. Quero ser lembrada por eles(elas) com carinho. Quero que a escola seja para eles(elas) um espaço alegre e de aprendizagens constantes. Quero que se sintam queridos(as), abraçados(as) e olhados(as). E isso não significa que não vou dar-lhes limites ou responder um “não”, quando for necessário. Mas tudo tem seu tempo e sei da importância de acolher para se vincular e também do limite com vínculo para aprenderem a lidar com as frustrações e para se sentirem seguros(as).

Muitas vezes me pego pensando se estou conseguindo ser a professora que busco. Diariamente, as situações variadas na sala de aula me desafiam, exigindo posicionamentos e intervenções diversas, até porque as crianças são diferentes. Às vezes, é preciso ser mais firme, ensinar o respeito às regras e aos combinados. Outras vezes, cabe falar mais suavemente, acolher mostrando entendimento, abraçar ou dar um colinho, por exemplo.

Tenho certeza de que a necessidade de ser firme e de educar não exclui o olhar atento e a atitude carinhosa no momento de insegurança. Acredito, ao contrário, que se complementam, e que é dessa forma, mesclada, que os vínculos de afeto e a confiança em si vão sendo construídos e, cada vez mais, uma relação de respeito vai sendo estabelecida entre professor(a) e aluno(a), bem como, entre escola e família.

Assim, é com aquela menina de 3 anos que retorno às aulas. Todos esses anos, há muitos anos. Foi com aquela menina que me tornei professora, uma professora crítica que se convoca a atualizar sempre questões de vínculo e educação, de acolhimento e respeito.

Que o frio na barriga persista, resista! Que ele não nos acomode, não naturalize esse momento tão singular, que antecipa tantos ingressos e ansiedades que são parte da caminhada da vida, do crescimento e amadurecimento: de alunos e alunas, evidentemente, mas também de professores e professoras que se aventuram na delicada tarefa de educar.