Celso Gutfreind

 

9ff093cd38391cfe640e46320df72c2f “Eu queria dar ao menino

umas asinhas de arame e algodão.

Mas ele diz que não pode ser anjo,

pois todos já sabem que ele é índio e leão.”

Cecília Meireles

 

 

 

 

– O Coelhinho da Páscoa existe?

– Existe sim.

– Mas eu o vi chegando de van.

– ……………………………………………

– E?

– Tem muito ovo pra entregar, e o serviço de entrega dá uma força.

Esta mãe enfrenta o seu primeiro desafio. Estimular a imaginação, sem a qual o filho não suporta a infância e nem a vida adulta. Ela consegue fazer isto, porque teve outra mãe que fez o mesmo com ela. Pode não ter sido quem a pôs no mundo e sim uma substituta, que a carregou vida afora. Mas o mundo está no tempo e, tempos depois, muda o diálogo:

– O Coelhinho da Páscoa existe?

– Na tua opinião?

– Eu acho que não.

– (Silêncio acompanhado de colo).

– (Silêncio acompanhado de lágrimas).

Esta mãe enfrenta agora o segundo desafio. Estimular a aceitação da realidade, sem a qual o filho não suporta a infância e nem a vida adulta.

Em nenhum outro papel do teatro humano, existe paradoxo tão pesado. Um psicanalista meio poeta, chamado Winnicott, disse-o primeiro e melhor. Ele era inglês e defendia duas funções para as mães; a primeira, iludir o seu bebê. Sem a ilusão, a criança não se torna criativa e nem capaz de enfrentar a realidade. Depois, cabe à mesma mãe desiludir. Sem a desilusão, a criança também não pode encarar a vida como ela é.

Mãe e filho jamais serão os mesmos depois deste diálogo. Mas vão estar aptos a viver no livre trânsito entre acolher o que é e reinventar o que não pode ser. Uma espécie de negociação entre a realidade e a imaginação, já que uma não existe sem a outra.

Haja talento, e teve psicanalista dizendo que é impossível. Chamava-se Freud e não era inglês. Mas, para ele, pouco importava a impossibilidade de ser mãe e pai. Fazia-se o possível, como de resto, e já seria suficiente para justificar com sobras a existência humana.

Certa feita, ao conversar com um poeta alemão, foi firme ao dizer que a sombra da morte tornava a vida ainda mais iluminada.

Outro poeta abordou o mesmo tema, antes e melhor. Ele disse: A thing of beauty is a joy for ever. Mal traduzindo, significa que uma coisa linda é um tesouro para sempre. Este sim era inglês.

No meio de tantas belezas, deu-me vontade de dizer que a vida é para ser degustada entre o que oferece e a busca de algo mais. É para inglês e não inglês viver. E imaginar entre os vãos da falta. Na Páscoa e no resto do ano.

 

(*) Do livro A Dança das palavras – poesia narrativa para Pais e Professores, Ed. Artes e Ofícios, 2012, págs. 94 a 96.