Virgínia Veríssimo

 

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Conto. Confiro um a um. Que sufoco até todos estarem juntos na caixa. Um que demora mais. Percalços na preparação, algo que falta, um problema no recolhimento dos bilhetes. Isso me deixa com o coração na mão! Repito a conferência. Não pode faltar um no grande dia!

Um círculo de crianças. Atenções voltadas para a caixa enfeitada com papel laminado e um grande laçarote de papel celofane. Nela, um cartão com letra caprichada, indicando o destinatário do presente. Acompanho de longe a menina recebendo o seu pacote, um embrulho simples para caber na caixa grande, com os outros.

Nos tempos de estágio aqui, observava o corre-corre das professoras do 1º ano. Que festa era aquela? Consegui ver, pela porta entreaberta, crianças da turma abrindo pacotes. Folheavam cadernos. Umas riam e vibravam, outras os abraçavam como seus entes queridos. Lágrimas escorriam de alguns olhinhos, também dos adultos, ao lerem páginas em voz alta. Sempre quis saber o que haveria escrito nelas que causava aquela emoção.

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Penso em quando ia entrar na escola, no quanto quis aprender a escrever e a ler. Conhecia cada letra e sabia recitar o alfabeto inteiro. Escrevia um apanhado de letras com carvão na pedra grés e pedia para a prima, já alfabetizada, ler e … nada! Tentava de novo, nenhuma palavra. No meu primeiro caderno tinha que escrever as sílabas em letra script. Ô letra difícil para mim! Não conseguia ler os livros com histórias infantis do Erico que ganhara de brinde no posto de gasolina! No caderno, havia um punhado de sílabas sem sentido que não conseguia juntar. Era doloroso escrever um trecho: ou era tudo correto ou nem tentava. Sobrevivi a esse ensino, como muitos da minha geração. Mas confesso: precisei de muitos anos de escritas guardadas e engavetadas, ou amassadas e jogadas direto no lixo, para expurgá-lo!

Seja como professora ou como coordenadora, ano a ano acompanho de perto a “festa do cadernão” na escola, que é das mais simples possíveis! A verdadeira festa é o conteúdo das mensagens colocadas carinhosamente nas páginas do primeiro caderno das crianças, por pessoas queridas delas. Fotos, desenhos e palavras encorajadoras para que elas registrem ali suas primeiras escritas. Para entrarem com empenho e encantamento no mundo das letras!

Depois, é tão bonito de ver no caderno, com capas enfeitadas por elas mesmas e as famílias, suas hipóteses peculiares e não, erros. Estratégias de cálculos explicitadas e desenhos que mostram seus próprios pensamentos e elaborações. Traçado que vai aos poucos se adaptando aos espaços e linhas. Escrita que vai, aos poucos, se aprimorando. É um marco a entrega do primeiro caderno na Projeto e é uma das marcas que queremos deixar.