Luciana Ottoboni

Professora do 1º ano da Escola Projeto

teresa poester

Quem nunca se reuniu em roda para conversar, cantar, comemorar etc.? A roda se faz presente em muitas ocasiões da nossa vida cotidiana, é quase que inevitável nos organizarmos em círculo. Você já reparou nisso?

Pode ser um círculo não tão redondo, um meio círculo, o fato é que essa maneira de se acomodar é quase uma ação inconsciente e, sem dúvida, aproxima, reúne, junta as pessoas.

Desde que trabalho em escola fiz muitas rodas com as crianças das minhas turmas. Sempre apreciei essa forma de reuni-las: sentar em círculo, organizar o corpo, estar perto umas das outras para conversar, seja sobre um assunto relacionado a um estudo, a um registro coletivo, para abordar conflitos, ler, contar histórias, fazer uma brincadeira, cantar, enfim, sempre existem boas razões para se sentar em círculo.

Para mim, a roda é um instrumento poderoso na convivência em grupo. Durante a roda é preciso conciliar ideias e opiniões, expressar sentimentos, se expor, selecionar o que se quer dizer, além de muito esforço para ouvir, esperar o outro terminar de falar, manter a atenção e controlar o corpo, adquirindo progressivamente a consciência corporal.

A diversidade de personalidades presentes numa turma exige esforços diferentes, mas sem dúvida todas aprendem umas com as outras. Há aquelas mais quietinhas que preferem ouvir, mas estão ali prontas e de olhar presente, as mais falantes que querem falar muitas vezes, as que falam moderadamente e, nesse vai-e-vem de palavras e escuta, atitudes e saberes desabrocham.

Recentemente, levei para a roda uma tabela com as brincadeiras e jogos preferidos das crianças, os quais havíamos experimentado na quadra da escola, dentro do projeto de “Escrita de um Manual de Brincadeiras”, e também como uma forma de diversificar o uso desse espaço. Quando coloquei-a no chão, uma criança ao ler FUTEBOL comentou: “Ei, profe, mas futebol, não termina com U?” Respondi que tinha som de U, legitimando o sentido de sua pergunta, mas que escrevíamos com L. No mesmo instante, outra criança disse: “É que nem BRASIL”.  E outra: “Então, GOL também se escreve com L?”

Respondi que sim, que o L ao final das palavras tem som de U, mas aproveitei também para mostrar que existem palavras terminadas com L e com U, e que isso dava a elas sentidos diferentes, como MAL e MAU. Imediatamente lembraram do LOBO MAU, supondo que era com U, pois tinham visto nos livros. E assim, conversamos mais um pouco sobre isso, buscando outros exemplos.

Ser professora e mediar a participação das crianças nas rodas é sempre uma boa surpresa. A gente leva um assunto ou algumas questões e isso gera outros tantos. Assim, nos deparamos com aquilo que nem sempre estava planejado, descobrimos que as crianças têm muito a dizer e confirmamos o quão valioso esse espaço pode ser.