Jéssica Mittmann (*)

0a7f29958ac8ae5ecbfe903a5bfc5a04Quem me conhece sabe que penso bastante. Penso a todo momento, a cada nova situação. A cada velha também. No fim, para falar no e do começo, acabei por não saber escolher o melhor título para o que havia escrito. Isso é, somente nomeei meu texto ao término e, mesmo depois de refletir, achei melhor por assim começar, com uma questão em aberto.

Sendo mãe, a cada momento avalio e reavalio a melhor forma de agir, interagir. Não adianta, a mãe permanece em constante diálogo com a professora. E isso me faz pensar ainda mais.

Certo dia, ou melhor, numa tarde comum de terça-feira, eu, no meu papel de mãe, exercendo a tarefa de levar, acompanhar e trazer meus filhos de uma atividade esportiva, deparei-me com uma situação que poderia ser facilmente resolvida. Mas, como sempre paro para pensar, não foi assim que ocorreu. Creio que tem algo dentro de mim que me instiga a promover oportunidades para que os outros pensem. (Olha a professora aí…)

Enfim, meu filho, ao sair da aula de natação, foi para um box do banheiro infantil utilizado frequentemente por ele. Busco dar-lhe espaço de autonomia e privacidade. Nesse dia, quando questionei do lado de fora do privativo se estava tudo correndo bem, ele mostrou-me a embalagem de sabonete líquido da sua irmã com a tampa quebrada. Era um daqueles com bico dosador, que precisamos apertar para sair. Questionei-o sobre o ocorrido e ele relatou que, ao tentar pendurar a mochila em um gancho alto, usado apenas por adultos, ela caiu e o pote quebrou.

Nessa hora, já incomodada pelo pote quebrado, perguntei se ele havia pensado que não alcançaria na mochila para tirá-la, mesmo que conseguisse colocá-la aos saltos. Ele reconheceu que não. Perguntei também por que não utilizou o gancho inferior, e ele não soube responder.

Segurando aquela vontade interior de mãe de encaminhar a solução, devolvi. Expliquei-lhe que ele deveria ter colocado a mochila no local de sempre e que sua aventura em experimentar um gancho fora de seu alcance tinha dado errado, pois havia quebrado uma embalagem que não era sua. Sendo assim, ficou de sua responsabilidade resolver a questão do sabonete da irmã.

Claro que, enquanto ele estava tomando banho e eu aguardava, já tinha tentado encaixar novamente a tampa e constatado que não havia jeito.

Deixei a situação transcorrer e ele encerrou seu banho, enquanto a mana ainda nadava, já que sua aula era um horário depois. Quando ela saiu, dei a ele a tarefa de ajudá-la com o pote, visto que ela não conseguiria manuseá-lo daquela forma. Ele prontamente ajudou e eu disse que ele ainda precisava pensar em como resolver, pois não seria interessante a ele ter que, em todos os banhos, até encerrar o sabonete, ficar ali tendo que ajudá-la, pois assim, nem ela conseguiria fazer sozinha e ele não poderia brincar nesse intervalo.

Saímos do clube, fomos para casa, os dois organizaram seus materiais e eu fui resolver umas coisas na cozinha, incumbindo-o de pensar para resolver a situação da embalagem.

Durante todo o tempo ele sugeriu coisas referentes a conserto. Uso de fita, de elástico, cola, buscando consertar algo que não tinha solução. Nesses momentos, disse-lhe para pensar grande, pensar além, sair desse lugar.

Depois de um tempo, começou a pensar em substituir o pote por outro. Mostrei que era um bom raciocínio, que ele já tinha ido além e ele começou a sugerir: pensou em pôr numa garrafa, usar uma colher para servir, usar pote de vidro. Mostrei-lhe que as ideias seriam boas, mas não adequadas a sua irmã menor. Então, ele voltava ao pensamento de consertar, mas dessa vez, “consertando” o novo pote, numa espécie de adaptação. Começou a pensar em usar outros grandes potes plásticos, fazer furos, construir coisas que vazavam. Não funcionaria. Sugeriu até uma mamadeira e eu disse que não tínhamos mais. Pensou em ligar para sua avó para ver se tinha uma e dentro de mim acendeu uma luz de alerta: não deixe outro adulto resolver por ele! Disse-lhe para continuar pensando.

A todo momento ele pensava e de vez em quando me olhava, com olhar “pidão”, pedindo ajuda e eu ali, firme. Deixei.

De repente ele se levantou e foi ao banheiro. Trouxe um outro pote quase vazio de sabonete e sugeriu que trocássemos o líquido de embalagem. Bingo! Eu já havia pensado nisso há muito tempo.

Claro que seria a solução mais simples, o caminho mais curto, mas, mais curto para quem? Para ele não foi. De qualquer forma, foi um caminho. Tortuoso, cheio de pedras, engrenagens. Ideias mirabolantes que se fossem em um momento de criação seriam ótimas. Contudo, o olhar ali era a praticidade, a resolução.

Como minha cabeça sempre está na ativa, choveram ideias em meus pensamentos nesse processo: Quando investir? Quando simplificar as coisas da vida? E quando a solução está “na nossa cara” e não conseguimos ver? Por que, às vezes, não vemos o mais simples? Ou também, por que, às vezes, simplificamos demais?

Na loucura diária, ocorre de fazermos tarefas por eles – filhos ou alunos – em algum momento, é natural. Entretanto, precisamos reparar, por mais incrível que pareça, quando fazemos sem perceber. Por vezes achamos que ajudamos ao sugerir algo, como trocar o pote. Ajudamos quem? A eles ou nós mesmos a manter a correria da vida? Como eles aprenderão a resolver os pequenos potes quebrados? Vão sofrer até conseguir trocar de embalagem? E por que trocar de pote foi tão difícil?

Questões e mais questões.

Na verdade, dentro de mim, eu esperava que ele buscasse algo mais simples, tão evidente para mim. Não ser simplista, mas ter sossego na solução. Mas, para isso, ele precisou de muito desassossego, precisou ficar pensando e pensando. Foi o que fizemos, e seguiremos.

(*) Jéssica é mãe da Manuela (Grupo4/5) e do Caio (3º ano), e professora do 5º ano do Ensino Fundamental.