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Tenho pensado tanto! Mais do que em outros tempos. Entendo que preciso soprar, caso contrário, corro o risco de explodir… de tanto pensar. Quando falo em soprar, não tomo esse gesto como empurrar para longe, aos modos do lobo mau na história dos Três Porquinhos, quando assopra as casas, uma a uma, vendo-as voarem pelos ares, mas como um gesto que produz movimento, que convida a colocar o pensamento a dançar, a voar com as ideias. Um sopro de pensamento.

Mas o que tem me feito pensar tanto? Qual o motivo de tanta necessidade disso? Explico com algumas imagens.

Saio de casa, diariamente, às 7h20 da manhã. Ao sair do portão do prédio em que habito, de imediato encontro um grupo de moradores(as) de rua, que se avizinha do jeito que pode ao longo das calçadas. E o frio, a chuva, a dignidade? Penso eu. Costumeiramente sou abordada: – Tia, tem um dinheirinho aí?

Ando mais um pouco, cruzo a avenida e a cena se repete. Só que não é a mesma. São outras pessoas, outras faltas, outras dores. E mais uma vez: – Aí, tia, tem uma coisinha pra mim?

Chego à escola. Cabeça quente, pensamento esgaçado. Antes de chegar, ainda outra imagem: corpos acomodados na calçada fria, malcheirosos, embrulhados em sacos plásticos, papelão e, se tudo der certo, um cobertor velho, sujo e furado. E os pés? De fora, congelados!

Abro o jornal e leio a manchete: “Projeto para os invisíveis”. A reportagem fala de um programa da Prefeitura para “atender” moradores(as) de rua, considerados… invisíveis? E eu me pergunto: invisíveis, para quem? Quem ainda não consegue enxergar a sua agonizante visibilidade? Deixo para pensar…

Mais uma imagem, narrada por uma mãe, que anda pela rua em companhia de seu filho, e compartilhada recentemente nas redes sociais: a criança, ao ver o “condomínio” de moradores(as) de rua formado próximo à sua escola, pergunta algo assim: – Mãe, por que essas pessoas estão ali? Por que não estão em suas casas? Por que não estão naquelas casas abandonadas ali da esquina? Se ninguém mora ali, por que elas não entram? A mãe fica sem saber o que responder.

Eu diria, talvez, ao menino: porque há um grupo de pessoas que acredita que eles(as) sejam invisíveis. Assim, não se envolve, não pensa sobre essa situação, deixa assim. Mas também há pessoas, meu filho, que os enxergam, que se incomodam com o que veem e buscam conversar sobre isso, pensar, inventar possibilidades.

Não temos respostas, a situação cresce e se agrava. Mas temos as crianças e sua capacidade de dar voz e visibilidade às nossas fraquezas, aos nossos receios, às nossas angústias. Não podemos oferecer as casas abandonadas às famílias do “condomínio” ao ar livre, mas podemos tirar um pouquinho do nosso tempo para ver, ouvir e perceber o que nos cerca. Podemos formar grupos para pensar juntos sobre o que vivemos, podemos juntar forças. E podemos, sobretudo, contar com olhar atento de nossas crianças. E aprender muito com elas. Afinal, os invisíveis se tornam visíveis aos olhos de quem, com eles, estabelece algum tipo de conexão. Uma rede se forma aí, em que um pensamento desencadeia outro e coisas impensadas podem surgir! Há uma relação interessada que se estabelece, uma força capaz de quem sabe, modificar modos de nos relacionarmos com o que nos é apresentado ou “vendido” como sem perspectiva, sem solução, ou grosseiramente denominado de invisível.

Fica para pensarmos e, talvez, soprarmos…

 

Ilustração: Emiliano Ponzi