Tatiana Cruz (*)

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O que é o que é? Tem todo mês e não é lua cheia. É pra criança mas os marmanjos adoram. É programação de escola só que nos fins de semana. Adivinhou? Isso mesmo: os Sábados Culturais da Projeto.

Não sei vocês, mas eu, quando vejo o bilhete na agenda da Elena avisando que vem Sábado Cultural pela frente, fico em polvorosa. Certamente – pode escrever aí no caderninho – vai ser uma sessão de cinema, um show, uma peça de teatro, uma exposição, enfim, algo muito bacana, que a gente não vê dando sopa fácil por aí. Com uma curadoria cuidadosa, a escola garimpa atrações que fogem do mainstream e nos apresenta produções que são verdadeiras epifanias.

Falo assim, me colocando dentro da coisa toda, porque me sinto como se fosse aluna da Projeto também. Foi na carona da Elena e dos colegas de escola que conheci Michel Ocelot e Kiriku, personagem dos contos africanos das animações desse premiado diretor francês. Também foi num Sábado Cultural que saí arrebatada pela animação O Menino e O Mundo, do diretor brasileiro Alê Abreu. O longa nem havia sido ainda indicado ao Oscar de melhor animação, e a Projeto já promovia uma sessão especial para as famílias da escola numa sala de cinema do Bourbon Wallig. Foi assim também com o Puli-Pulá e as brincadeiras de pular corda na rua. O show do Mandinho no Teatro da AMRIGS, o espetáculo Seu Rei Mandou, entre outros, muitos…

Dizem que a gente ensina um bocado de coisas para as crianças, que a gente apresenta o mundo pra elas – nem questiono uma coisa dessas. Mas nesses seis anos de Projeto, ouso dizer que eu, a marmanja, é que saí ganhando em descobertas.

E isso me joga direto lá pra 30 anos atrás, quando era eu a banguelinha, estudando na 2ª série, contando os dias para as chegadas das sextas-feiras. As sextas-feiras no meu colégio em Novo Hamburgo eram sagradas porque a professora Claudia as batizou de Sextas das Artes. Nas sextas-feiras, a gente não tinha tabuada, ditado, nada, a gente se apresentava: teatro, música, poesia, desenho, mímica, o que quisesse. A regra era criar. Criar qualquer coisa. E não pensa que era um tormento para os tímidos: ao contrário. Por ser normal, corriqueiro, no fluxo dos dias, aquilo ganhava corpo na gente de forma natural, tendo o olhar generoso para o que o outro ofertava. Creio que veio dessa experiência a busca por uma escola onde arte existisse assim, incorporada à rotina, descortinando diferentes realidades, sentimentos, para nos mostrar diversidade, nos sensibilizar, nos tornar enormes.

Dar um tempo nos dramas da Bela Adormecida, do Shrek, da Larissa Manoela e acompanhar o menino e o mundo da lavoura do algodão, na pontinha da enorme cadeia da indústria têxtil, com suas perdas sociais irreparáveis, se deslumbrar com a cor e a sabedoria da aldeia de Kiriku com os ritos, os valores e a força do coletivo das tribos africanas, pular corda na praça até suar e doerem os joelhos, tudo isso exigiu de mim recuar no que tenho a ensinar para crescer no que tenho a aprender.

E o melhor: aprender ao lado de uma menina e de seus colegas que, ainda tão novos, estão podendo experimentar um poder mágico da arte: o de calçar o sapato do outro e, por algumas horinhas, ser outra pessoa, viver outro mundo, agigantando o seu. Um salve por isso, Projeto. E, a propósito: quando é que tem Sábado Cultural de novo?

(*) Mãe da Elena, 8 anos, aluna do 2º ano.