0e4118beb89dac70cd2d30893715f111                                    Ana Helena Amarante (*)

Desconfie da maturidade. A palavra já avisa que o suposto fruto está maduro, pronto. E assim vamos respeitando a ideia de que a faixa etária “meia-idade” corresponde à maturidade. Assim, se outorga o direito de saber o que fazer com as pessoas velhas que nos rodeiam e o que fazer com as crianças também. Estar no centro dessa suposta maturidade, encarnando esse poder quase soberano de quem sabe o que é melhor para os outros, pode ser um peso para quem se localiza aí, mas também para quem está por perto. Se isso não lhe parece pesado, cuidado, talvez você esteja gostando desse poder.

Há uma velha concepção em nossa história de que trazemos uma essência, uma semente que se desdobraria durante a vida. Seria preciso, para tanto, oferecermos condições ideais para essa semente se desenvolver e dar o seu fruto, atingindo o seu estágio de maturidade. Essa concepção aristotélica, há mais de 2000 anos presente em nossa história, fundamentou muitos saberes de que hoje dispomos. Na Educação, na Psicologia, Medicina, Direito e outras áreas. O que há em comum aí é que cada saber (e mesmo um senso comum presente em nossos tempos) fortalece a ideia de que para desenvolvermos bem a semente que frutificará devemos conduzir nossas vidas adequadamente, fiéis à semente. Daí decorre uma vida que de saída já tem um “como deve ser”, uma dívida, uma vontade adestradora.

É claro que as estratégias políticas de cada tempo foram também sendo pensadas de forma a oferecerem o que seria essa vida adequada. Não sejamos ingênuos de não perceber a trama entre essas estratégias e os saberes que nos são oferecidos. Como ser um bom pai e uma boa mãe? Certamente há manuais de sobra, especialistas de sobra, verdadeiros entulhos nesse processo. Não se defende aqui o abandono dos saberes, mas uma inquietação e posição em relação a eles. A noção de maturidade é cega e faz, muitas vezes, toda a preocupação com as crianças se relacionarem ao futuro, ao que elas um dia se tornarão em suas supostas maturidades. Pais e mães viram espécies de guardiões das essências/sementes dos(as) filhos(as), cuidando para que a vida se conduza como “deve ser”, afastando o que difere e identificando o que se aproxima da suposta “identidade” ali guardada. Que movimento é este, senão um adestramento em consonância com muitas políticas que nos rodeiam? O “deve ser” é inimigo de uma invenção da vida.

Por tudo isso, escolhi a palavra TEMPO para presentear a Escola Projeto. Penso que há uma valorização não só de um tempo mais lento em relação à esteira produtiva de tantas outras escolas, mas também uma atenção ao tempo presente, ao que as crianças são agora, o que produzem e inventam agora. Se elas desdobrarão essas características ao longo de suas vidas, não se sabe. Talvez. Mas que sempre fiquem atentas aos processos do presente, do que em cada tempo serão. Sem fidelidade ao engodo da semente percebemos que somos variação constante, sem ponto a chegar, sem meta, numa vida bem mais rica porque inventada. Meu filho escolheu a palavra LIBERDADE para dar de presente à Projeto. Juntei tudo e ficou assim: liberdade de criar o tempo, no seu tempo presente – presente pra Projeto, presente da Projeto pra gente.

(*) Mãe do Antônio, 5º ano; Psicóloga, Dra. em Filosofia, Diretora do Grupo Teatral das Duas Outras.