Neca Baldi (*)

Design sem nome

Desde pequena sabia que seria professora. Meu brinquedo favorito era o de escola. Eu tinha sempre muitos alunos, representados por livros de capa dura espalhados pelo chão da sala ou do quarto. Nas minhas “aulas”, sempre saía do sério e me ocupava demais com aqueles alunos que não faziam o que era solicitado ou que apresentavam dificuldades.

Mais adiante, já atuando como professora, de verdade, segui muito implicada com aquelas crianças que demandavam mais cuidado. Continuei saindo do sério e tentando de todas as formas atingir todos e todas. E não eram somente as demandas cognitivas que preocupavam. Lembro de um menino, da escola municipal onde realizei meu estágio probatório, que tinha muitos problemas e que também passava fome. Em casa, sua refeição, muitas vezes, era sopa de jornal. O jornal inchava e lhe dava uma sensação de saciedade. Algo que ainda hoje me impressiona e, na época, me impactou. Ele faltava seguidamente à aula e mostrava-se desmotivado. Foi um aluno que me marcou. Meu desejo era lhe dar comida para que pudesse levar para casa e se alimentar dignamente, mas o que lhe dei, de fato, foi minha atenção. Na sala de aula, nossos olhares se cruzavam o tempo todo; me importava realmente com ele e o provoquei para que estivesse ali e interagisse naquele ambiente de afeto, de aprendizagem e de trocas. Afinal, ele não abandonou a escola e foi aprovado ao final do ano.

Em todas as turmas que atuei como professora, seja no ensino fundamental ou na educação infantil, na escola pública ou privada, fui intensa. Acho que essa característica faz parte da minha personalidade. Pegava tudo e todos(as) pra mim, dava o que eu tinha e sabia para tornar o meu trabalho com aquelas crianças o melhor possível. E nem sempre foi, e nem sempre acertei, mas nunca desisti. Olho pra trás e adoro lembrar o que fiz e vivi nas minhas inúmeras turmas.

O profissional que desiste ou que atua por atuar, não se importa, não arregaça as mangas, não olha. E para fazer a diferença é preciso estar envolvido, é preciso que todos os sensores estejam ativados.

Sabemos que aquilo que fica não é o que dizemos, mas o que fazemos. A atitude otimista e “pra cima” é que vai oportunizar o encontro, e este é que vai determinar todo o resto, ou melhor, tudo de mais importante.

(*) Diretora da Escola Projeto.