Mariana de Medeiros e Albuquerque Barcinski

Psicóloga clínica 

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Como estudiosa de gênero há mais de 20 anos e como psicóloga clínica atenta às questões contemporâneas e como elas produzem subjetividades situadas historicamente, sempre acreditei que a escola não poderia se furtar a tratar de temas que, em grande medida, determinam a forma como crianças e adolescentes acessam (ou não) a educação formal. Portanto, gênero, raça, classe social, orientação sexual, deficiências têm que figurar, acredito, como temas transversais aos conteúdos curriculares nas escolas. É como crianças que nossos filhos estreiam na vida escolar. Mas é como crianças de determinado sexo e gênero, identificadas com determinada raça e classe social, com corpos que se encaixam mais ou menos em um ideal socialmente construído de normalidade que elas se colocam no espaço da escola. Se colocam, são vistas, são lidas e compreendidas, portanto, como crianças (e jovens) diferentes, mais ou menos aptas, necessitadas de mais ou menos ações modeladoras ou adequadoras.

Como mãe de menino, a questão de gênero e, particularmente, dos símbolos e rituais da masculinidade hegemônica me tocam especialmente. Enquanto às meninas ensinamos o recato e a atenção constante aos excessos do corpo, aos meninos são vedados os excessos emocionais: não chorem, não demonstrem suas emoções, aguentem os sofrimentos do corpo e da alma sem grandes expressões públicas. Afinal, ser emotivo aproxima os homens das mulheres e este é o grande pavor da socialização masculina. Ensinamos aos meninos, desde muito pequenos, que ser homem é não ser uma “mulherzinha”, num precoce aprendizado da violência de gênero!

Acredito na escola como espaço privilegiado na construção de formas outras de estar no mundo, formas outras de constituição do feminino e do masculino. No entanto, e aqui está o grande risco de uma escola que não entende gênero e sexualidade como pautas centrais, é também neste espaço que os estereótipos de gênero correm o risco de serem produzidos e reproduzidos sem maiores questionamentos. É ali que as violências mais sutis e mais travestidas de essencialidade são cometidas contra meninos e meninas. Ora, que violência é fazer as meninas se acreditarem naturalmente dóceis, desprovidas de desejos e de agressividade. Quanta violência é para um menino ter que performar a masculinidade hegemônica, dando provas constantes de força, de desleixo com o seu corpo e o corpo do outro.

São inúmeras as tecnologias escolares que modelam meninos e meninas, bem como os espaços construídos para eles e elas. Das mais óbvias, como filas distintas organizadas por sexo, aulas específicas para meninos e meninas, às mais sutis, como a repetição de crenças que naturalizam as diferenças entre eles: meninos são ótimos em matemática, enquanto meninas cuidam do material escolar com capricho e afinco inigualáveis. Construções sociais repetidas como essenciais, construções essas que em nossa sociedade naturalizam a desigualdade entre homens e mulheres, posicionando-os em lugares fixos numa hierarquia de gênero forjada desde a educação infantil.

Diante do profundo retrocesso que temos vivido, das tentativas institucionais de reduzir o grave impacto social da violência de gênero e a desigualdade entre homens e mulheres no nosso país, é preciso gritar que sim, que falaremos de gênero e de sexualidade na escola. Que queremos construir uma sociedade mais justa e mais igualitária e que este projeto depende de nossos esforços na constituição de meninos/homens amorosos e sensíveis, de meninas/mulheres assertivas, plenas de desejo e conscientes de seus direitos e de adultos dispostos a desconstruir os estereótipos que sustentam a violência por tempo demais no Brasil.