Julio Cesar Walz e Paulo Sérgio Rosa Guedes (1)

IMG-20190327-WA0023Essa pergunta pode parecer estranha, afinal, todos os adultos que se tornam mãe e pai, em geral, dizem que amam seus filhos e que fariam de tudo por eles. Não duvidamos dessa afirmação. E provavelmente nem é sobre ela que iremos nos debruçar aqui.

Queremos falar do ato diário e de convívio entre adultos e crianças e sobre a responsabilidade do adulto para com o des-envolvimento da criança. Se pudéssemos dizer em alguns tópicos, o que nos parece ser realmente a responsabilidade dos pais e o que de fato é imprescindível nessa relação responsável ou cuidadora, diríamos assim:

1) Criança é vida em expansão. Ou seja, a criança literalmente é um universo em expansão de todas as formas: biológica, cognitiva e emocional. Todos os dias ela está mudando. Todos nós estamos, mas uma criança muito mais.

2) Para ela é mais difícil assimilar as mudanças. Há um medo intrínseco em se des-envolver. E nesse medo decorrente do que chamamos de des-envolvimento, ocorre uma sensação interna, na criança, de
que está causando mal a alguém ou àquilo que ficou para trás. E aqui começa a tarefa de cuidador ou de responsabilidade dos adultos: acolher e construir pontes (2) durante esse des-envolvimento cuja trajetória leva muitos anos até conseguir ser completada.

3) Construir pontes é não conversar com a criança em sua literalidade. Somente assim é possível ajudá-la a expressar seu desejo, angústia ou dor. Para isso, o adulto responsável é aquele que não critica, não julga ou se chateia com as dificuldades naturais de uma criança, mas a ajuda a fazer passagem de um estado para outro através de pontes, que são recursos de variados tipos que permitem a transposição de um lugar para outro com a segurança de uma boa trajetória.

4) Gostar de ouvir as crianças. Quer dizer novamente: não tomar literalmente a fala de uma criança, mas sim, sempre saber que em tudo que uma criança diz há uma melodia de vida que muitas vezes não se expressa de forma clara ou adequada para o mundo dos adultos. Por exemplo: quando ela está brincando de revolver brinquedo o adulto precisa saber que ela está brincando e que isso não tornará a criança um futuro criminoso. Não tomar na literalidade é isso: a criança brinca e o brinquedo nunca é linear como os adultos muitas vezes gostariam que fosse.

(1) Julio Cesar Walz: psicólogo (juliowalz@hotmail.com) e Paulo Sérgio Rosa Guedes: psiquiatra e psicanalista (psrg@terra.com.br).
(2) Sobre as pontes confira em nosso livro: WALZ, Julio Cesar. Aprendendo a lidar com os Medos: A Arte de cuidar das Crianças. 4.ed. ou ebook no site: www.criandoconsciencia.com.br