Tatiana Cruz (*)

 

yoko furusho

Elena já está no 3º ano, escreve emendado e lê com fluidez, sentindo as pausas dramáticas das exclamações, levando pra voz a cadência das vírgulas. É aquilo que todo pai e toda mãe sentem: um calor bonito no coração por vê-los curtindo o frenesi da leitura.

Hoje, porém, me alcançou uma sensação ainda maior, que transbordou e que me fez vir correndo compartilhar aqui. Estávamos no Uber, voltando da escola, e eu perguntei como tinha sido o dia (preciso confessar: mais por força do hábito do que por estar inteiramente pronta pra escuta). Com o celular na mão, resolvendo pendências de trabalho, era um tal de livro pra lá livro pra cá, biblioteca, 30 minutos, eu fazendo sim com a cabeça – um fiasco de mãe. Num instante, porém, ela disse: “e mãe, olha só, eu li pra Rosa, a Rosa é pequenininha, eu ajudei ela a aprender a ler”.

Aquilo me capturou e me jogou pra dois anos atrás. À época, Elena estava na primeira série (sim, eu falo primeira série, não me acostumo) e veio com uma vivência escolar que muito me tocou. Na rotina diária de 30 minutos de biblioteca, um luxo em um país que ainda conta mais de 11,46 milhões de analfabetos – sem falar nos funcionais -, alunos e as alunas da 3ª série entravam com a missão de sentar ao lado dos “pequenos” para ajudá-los na leitura de histórias. Foi um dos momentos em que a Projeto me fisgou total. Estava apaixonada. E agora os votos se renovavam. Dois anos depois.

Dentro do Uber, o motorista baixou o som da música e, pelo retrovisor, percebi que prestava atenção no que Elena contava. Larguei o celular. E passei a escutar com atenção, fazendo perguntas, na delícia da entrega aos detalhes. Foi assim que soube que Rosa está na primeira série, na turma da professora Ana Cristina, e tem um curativo no queixo por conta de um machucado e que deu carta branca pra Elena escolher o primeiro livro da sessão de leitura. Como conheço a solenidade da filha que tenho, consigo até imaginar a retidão da coluna, os ombros afastados, o peito aberto, em total emoção concentrada ao ir até a estante pegar “A Árvore Magnífica”.

– Eu amo esse livro. Quis mostrar pra ela o meu preferido. Um pai e uma filha que querem voar. Como eles não conseguem, eles passam tempo perto de uma árvore admirando o voo dos pássaros – contou.

Além da árvore dos pássaros, os 30 minutos de “biblio” renderam ainda a história de Júlio, que tinha medo de escuro, e um passeio de ônibus com uma menina que ficou impressionada quando o coletivo entrou em um túnel: “E daí, mãe, a página do livro ficou toda escura nessa hora”.

Biblioteca é um troço que me emociona. E a biblioteca da escola onde a Elena estuda fica em um lugar de passagem. É até estranho. Para deixar o lanche na geladeira da cozinha ou acessar a sala de oficinas, no fundo do prédio, é preciso atravessar aquele recinto repleto de estantes de livros. Existem caminhos alternativos ao ar livre, mas, quando chove, as crianças já sabem: é bater à porta e pedir licença para a travessia. A biblioteca se abrigou no coração da escola, estrategicamente localizada no lugar do afeto – uma verdadeira licença poética.

Um dia Elena teve a ajuda de “um grande” da terceira série pra ler. Hoje ela leu. Nos meus devaneios, quero crer que esse ritual compartilhado, a emoção de aprender e ensinar horizontalmente, sem necessariamente a figura do professor como autoridade, pegando almofadas de um lado, ajeitando em outro, entendida do espaço, plena e alegre pelo acontecimento diário, aproxima a criança do livro e do prazer diário de abri-lo. E poderia ser só isso e já seria muito, mas não é. Ao contar do dia pra mim, com o motorista do Uber nitidamente encantado pelo encantamento dela, em uma frase ela consolidou o poder de uma biblioteca em uso pleno e diferenciado:

– Uma hora a Rosa pediu pra eu dar a mão pra ela. Ela ainda é pequena. Um dia ela vai estar lendo pra outra menina pequena, né, mãe?

– É sim, Elena. Que bom!

 

(*) Jornalista e mãe da Elena, 8 anos.

Ilustração: Yoko Furusho