Rafael Bricoli (1)

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Em 2018, quando propus a oficina de dança-teatro para adultos, eu sabia que estava saindo completamente do meu lugar de conforto. Tinha um quê de desafio. Eu trabalho com criança há bastante tempo e já tenho meus macetes e repertórios, minhas cartas na manga e meus planos “B”, visto que a troca em sala de aula muitas vezes se mostra imprevisível mesmo com tudo planejadinho. Mas com adultos era um terreno novo para mim. E fui aberto pra aprender.

Em meio ao caos que foi o ano passado, na escola estávamos experimentando a primeira turma dessa oficina.  Cheguei de mansinho, sabendo que adultos em geral carregam medos e inseguranças e travas e autocríticas e autossabotagens, que vão se adquirindo com a idade. Coisas que em geral as crianças ainda não têm. Eu, adulto também, cheguei carregando comigo os minhas. A primeira turma. Seis mulheres. Só mulheres e o que esse dado pode significar. Desde o começo, quis proporcionar um espaço de confiança e de empatia. Um espaço em que as fragilidades pudessem ser externalizadas. Falar de sentimentos e tentar colocá-los em cena. Foram várias as questões, então, que permearam nossas experiências durante o ano passado: O que é dança-teatro? Quem foi Pina Bausch? Meu corpo pode dançar? Consigo falar desse assunto? Encaro esse desafio? O mundo externo naquele caos e, ali na sala, podíamos falar sobre o que nos toca, nos fere.

O teatro e a dança são fazeres coletivos. Não tem como não se influenciar pelas pessoas que nos rodeiam. E num processo artístico isso nos atravessa o tempo todo. Nas atividades, nos improvisos, nas conversas, nas trocas, nos anseios. No fim do ano, com as cinco mulheres remanescentes combinamos um ensaio aberto. Um momento pra dividir com pessoas próximas as coisas que vivemos e criamos. Naquele dia, vi nelas um ensaio de coragem. Colocando seus corpos pra dançar, pra mover, pra dizer coisas. Mulheres que não tem como profissão a dança estavam ali dançando. “A pele que demasiado sente” foi o nome dado ao trabalho. Que bonito, que singelo, que potente.

Este ano, o estudo da oficina é buscar esse coletivo que há em nós. Em como ser um coro de indivíduos, com suas histórias e memórias, com suas alegrias e poesias e ser, ao mesmo tempo, uma multidão. Fortalecida por ser multidão. Atualmente temos um total de seis participantes. Seis mulheres novamente. Seis multidões que naquela sala estão se permitindo mexer o corpo e falar e dividir e brincar e jogar e dançar. Dançar. Botar pra fora as coisas que não cabem em outro lugar. Contar nossa história e descobrir que as nossas histórias individuais se conectam na multidão. E ali vou aprendendo, junto com elas, essa difícil tarefa de manter a sanidade em meio a tanta loucura. Coisa que só a arte pode proporcionar.

Ficou interessadx? Ficou curiosx?

Cola com a gente. Ainda tem vaga. Homens também podem.

Diante de tudo o que temos vivido, o que nos resta senão dançar?

P.S.: Agradeço à Conceição, Ana, Pati, Katia, Ângela, Simone, Débora e Déia pela confiança na proposta.

 

(1) Rafael é professor de Teatro no ensino fundamental da Projeto e coordenador da Oficina de Dança-Teatro para Adultos, que acontece às quartas-feiras, das 18h15 às 19h45, na Unidade 1 da Escola (Rua Cel. Paulino Teixeira, 394). Saiba mais: http://escolaprojeto.g12.br/comunidade/links/atividades-especiais/oficina-de-montagem-teatral-adultos/