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Não é toda escola que tem uma biblioteca que leva o nome de uma autora como Lygia Bojunga, inaugurada pela própria homenageada, frequentada diariamente com entusiasmo pelas crianças e que completa 25 anos com mais livros novos chegando às prateleiras, não é? Na semana do aniversário da biblioteca da Escola Projeto, cujas duas unidades foram carinhosamente batizadas com os nomes de dois títulos da autora, “Os Colegas” e “A Bolsa Amarela”, convidamos a doutora em teoria da literatura pela PUCRS, especialista em literatura infantil e juvenil, Cristine Zancani, mãe da Clara, nossa aluna do 4º ano, para explorar as possibilidades desse espaço tão querido. Vale lembrar: além de atender os estudantes, nossa biblioteca é aberta para pais, mães e familiares, inclusive com títulos para o público adulto também. Vem ver aqui como foi a experiência da Cris e vem para nossa biblioteca também. Estamos abertos para as famílias no início e final de cada turno. E é possível pedir para pesquisar disponibilidade de obras nas nossas secretarias!

“Fui até a biblioteca no turno da tarde, acompanhada pela Clara, minha filha, aluna do quarto ano. Talvez, me concentrasse mais na minha missão se fosse sozinha, mas não seria tão bonito, quanto foi ter a Clara me apresentando tudo. Por pouco tempo, ficamos sozinhas na biblio (termo científico do carinho das crianças pelo espaço). A sala logo foi ocupada pela turma da professora Graça – o que só aumentou a beleza. A maioria das crianças da turma conhecia a Clara – e isso é o incrível de uma escola/casa como a Projeto. Independente da divisão de turno, turmas, idades: todas e todos se (re)conhecem. Além da turma, sendo a biblioteca espaço de passagem, também passaram por ali outros abraços. Em uma escola/casa a gente nunca economiza abraços. Foi bonito viver a biblioteca como parte do caminho: algo que me encantou na primeira visita que fiz na escola.
Agora que já me derramei um pouco, uma constatação: falhei na minha missão. É impossível conhecer o acervo da biblioteca em uma única visita. Mesmo se fosse possível ter olhado todos os livros, eu não teria olhado todos os livros. Era o fim de uma tarde, muitas turmas já haviam passado por lá, muitos livros já haviam sido retirados. O acervo da Projeto não mora naquelas estantes. Ele se muda constantemente para dentro das crianças. Tinham muitos livros voando fora daquelas prateleiras – ainda assim cheíssimas de livros. Outra falha minha: queria ter lido a caixa de presente (sim, tinha uma caixa de presente recheada de livros novos sobre uma das mesas), mas as crianças que chegaram se atiraram na caixa. Então, tudo que eu posso contar é que aquela lista de livros novos que recebemos pela agenda de recados está sendo muito bem aproveitada pelo que eu pude ver – não podendo ver – o que é um ótimo sinal.”

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Além de fazer uma visita “de reconhecimento” do espaço, Cris criou uma lista com dicas incríveis de livros para retirar na “biblio” e ler com as crianças em casa. Ela se deteve apenas ao acervo infantil, mas jura que volta, um dia, para garimpar títulos de adultos também. E nós vamos cobrar, viu, Cris? Eu, se fosse você, tomava nota e ia correndo explorar esses títulos também:

1 e 2) Bolsa amarela e Corda bamba: da Lygia Bojunga, autora que nomeia a biblioteca, eu escolhi duas obras: dois livros que moram em mim e em todos os programas das disciplinas que ministrei sobre literatura infantil e juvenil nas faculdades de Letras e Pedagogia. Bolsa amarela conta a história de uma menina que tem que aprender a lidar com as suas vontades, além de contar outras tantas histórias incríveis de personagens que vivem em volta da protagonista: como o galo que tem o pensamento costurado. Sempre bom refletir sobre pensamentos costurados, não é mesmo? Corda bamba narra a saga de Maria, uma personagem que precisa lidar com um trauma. Em volta de Maria, tem a mulher barbada, tem o engolidor de fogo e tem até uma avó que compra pessoas. Além de muitas portas onde Maria tem que entrar para descobrir sua história. O livro é forte e poético e abre muitas portas dentro da gente.

3) A fada que tinha ideias: da Fernanda Lopes de Almeida, encontrei nas estantes obra que conta a história de Clara Luz, uma fada que não quer utilizar os feitiços de sempre: quer inventar suas próprias mágicas para movimentar o mundo. Qualquer semelhança com o nome da personagem principal e o nome da minha filha não é mera coincidência. Essa obra nomeou minha filha (abaixo, foto da Clara, faceira, lendo para as primas).

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4) Zoom: como livro de imagens, sugiro este aqui, de Istvan Banyai. Um livro filosófico que nos coloca em perspectiva. Leiam e vocês vão entender o que estou falando. Aliás, vocês podem ler o livro de trás pra frente depois de realizar a leitura na ordem que nos é natural.

5) Chão de peixes, da Lúcia Hiratsuka, foi uma bela surpresa que a escola me apresentou esse ano. A obra traz um casamento perfeito entre Haicais e ilustrações. A maioria de nós não foi ensinado/a a ler ilustrações. Os livros infantis são um ótimo exercício – e sempre podemos contar com a ajuda das nossas crianças, que estão sendo instrumentalizadas para a leitura da imagem.

6) Heroínas negras brasileiras, de Jarrid Arraes, foi uma ótima surpresa na estante. São quinze poemas em forma de cordel, cada um recuperando a história de mulheres negras que fizeram parte da História do Brasil.

7) A menina e o monstro, de Martina Schreiner, é um livro que fala sobre tristeza e sobre depressão infantil – de uma maneira cuidadosa, metafórica e muito sensível. Não é um texto triste de ler, pelo contrário: tem aventura, tem monstro que vive sob a cama e ajuda a protagonista, tem coração resgatado de dentro de uma jaula, tem final feliz. Foi a Clara que me mostrou no acervo – porque também temos um exemplar na nossa biblioteca caseira. Vimos uma montagem de teatro sobre o texto e nos apaixonamos.

8) Roupa de brincar, de Eliandro Rocha, também foi sugestão da Clara. Livro lindo que conta sobre um armário muito colorido que um dia fica todo preto. Sem falar em luto, o luto está na entrelinha da história e vai ser sentido, de alguma forma, ao longo da leitura.

Especialista no tema, Cris lembra da importância de não se deter a barreiras de idade ao se aproximar de obras infantis:

“Alguns adultos se surpreendem que temas profundos ou pesados possam fazer parte de livros para crianças. Não há temática proibida na literatura infantil, desde que adaptada ao entendimento dos leitores. No mais, cabe lembrar que a literatura infantil de qualidade rompe as barreiras de indicação etária. Os adultos também se emocionam, se divertem e aprendem em contato com os bons livros infantis e juvenis. Deixo o convite para que leiam essas obras na companhia dos/das pequenos/pequenas”, diz.

Outra recomendação da mãe da Clara é um convite a não abandonarmos a leitura para as crianças ou com as crianças:

“Quando as crianças se alfabetizam, muitas vezes, deixamos de ler para elas/com elas. Sugiro que a gente não abandone esse momento de leitura compartilhada porque ele segue sendo uma forma muito amorosa de vínculo. Posso assegurar que, tendo a idade que a gente tiver, a gente nunca deixa de gostar de ouvir histórias. Posso assegurar também que ver como as crianças preenchem as entrelinhas de uma obra literária é uma forma muito bonita de se surpreender. A biblioteca da escola nos proporciona muitos caminhos para que essa surpresa ocorra. Que as famílias aceitem o convite que está sendo feito pela escola e que a ocupem. Tudo que vem a partir daí é encontro, abraço, encantamento e era uma vez”.

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