Maíra Suertegaray Rossato (*)

Há sete anos, minha filha Dandara fez uma pergunta: “Por que não existem princesas negras?” Leitora voraz de livros, os contos de fada eram os seus preferidos. Dandara, menina negra em construção da sua identidade, não se via representada nas histórias, não encontrava princesas como ela, da sua cor e com seus traços.

Esse questionamento foi um divisor de águas na minha vida de escritora e de professora branca que sou. Em um país onde mais da metade da população é negra, onde o racismo é realidade em diversas instâncias, não é possível não responder a essa pergunta que o tempo me mostrou não ser só da minha filha. Deparei-me com muitos questionamentos a respeito da desigualdade social no Brasil, do racismo estrutural, da valorização da beleza eurocentrada em detrimento de outros padrões de beleza. Questionamentos feitos por crianças, decorrentes das suas experiências pessoais, do seu mundo vivido, das suas dores e na busca de um entendimento.           

Em muitos textos dedicados às crianças e jovens, o racismo é expresso pela ausência da imagem do negro e pela constante afirmação de um ideal de comportamento e beleza branco. A construção da identidade de uma criança que não percebe, nos seus repertórios imagéticos, correspondência corporal positiva ou que é marcada pela invisibilidade é prejudicada, uma vez que essa criança, ao não se enxergar dentro do padrão estabelecido, mesmo inconscientemente, passa a atribuir características negativas ao seu próprio corpo, a sua história.         

Como mudar isso? É fundamental apresentar à criançada negra e não negra histórias diferentes daquelas que conhecemos sobre a África, africanos e afrodescendentes. É preciso positivar essa história, reafirmar a negritude, reivindicar respeito às heranças africanas, atuando nas transformações das relações étnico-raciais. São esses pressupostos que movem minhas histórias, que me orientam como escritora.

O continente africano guarda uma história riquíssima, que inicia com o surgimento da nossa espécie na Terra, e é formado de um belo mosaico de paisagens sobre as quais muitos os povos desenvolveram diversos modos de viver, a partir de aldeias, reinos e impérios. Na África viveram (e ainda vivem) princesas e príncipes, guerreiros e guerreiras.

É necessário falar da diáspora africana e da escravização de mais de 4 milhões de pessoas trazidas para o Brasil, mas é essencial falar de formas de resistência e de luta contra tudo isso no passado e no presente. O letramento racial crítico é essencial desde os pequenos. Identificar e questionar os papéis que normalmente são atribuídos a brancos e negros é essencial para que as crianças possam, desde pequenas, desnaturalizar o racismo entranhado na sociedade. Mostrar o protagonismo negro – sua beleza, força e conquistas – é relevante para que crianças negras se vejam representadas e possam visualizar uma realidade diferente.

Chimamanda Adichie em seu livro Educar Crianças Feministas: um manifesto (2017, p. 52) fala nesse sentido.

Esteja atenta também a lhe mostrar a constante beleza e capacidade de resistência dos africanos e dos negros. Por quê? A dinâmica de poder no mundo fará com que ela cresça vendo imagens da beleza branca, da capacidade branca, das realizações brancas, em qualquer lugar onde estiver. Isso estará nos programas de tv a que assistir, na cultura popular que consumir, nos livros que ler. Provavelmente também crescerá vendo muitas imagens negativas da negritude e dos africanos. Ensine-lhe a sentir orgulho da história dos africanos e da diáspora negra. Encontre heróis e heroínas negras na história (ADICHIE, C. Para Educar Crianças Feministas: um manifesto. São Paulo: Companhia das letras, 2017.)

Foi isso que fizemos na Projeto naquela linda tarde de inverno com o 2o ano, com o livro Dandara e a Princesa Perdida: falamos de África, de princesas, de reinos e de ancestralidade. Mostramos uma história diferente, uma história de autoconhecimento de uma menina negra e de descobertas.

(*) Mãe da Anahí, do 2º ano/turma 23 da Projeto, e da Dandara, professora do Colégio de Aplicação/UFRGS e escritora