Luisa Durán Rocca (1)

As Missões foram uma singular experiência na qual Jesuítas e Guaranis aportaram o melhor de si para propor um modelo socioeconômico e cultural alternativo. Embora abruptamente interrompido na metade do século XVIII, o projeto missioneiro deixou marcas significativas na paisagem, na cultura e nas sociedades da região. Por isso alguns dos remanescentes no Brasil, na Argentina e em povoados do Paraguai estão inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Recentemente o território missioneiro, comum aos quatro países da região platina, foi declarado patrimônio cultural do MERCOSUL.

Desde que cheguei a Porto Alegre, há 19 anos já, as Missões me encantaram. Como era uma temática amplamente estudada por meus professores e colegas, gerava-me um sentimento contraditório de curiosidade, admiração, distância e respeito. No início deste ano, encontrei dentro dos trabalhos do meu filho Miguel um desenho da igreja de São Miguel feito por ele e sua colega Bia Oliveira. A precisão na interpretação dos detalhes arquitetônicos, o azul intenso do céu e a terracota da igreja me impressionaram, mas o que de verdade me chamou à atenção foi que, ante a imponente ruína, havia uma série de figuras humanas em escala (2).  

Dias depois, o arquiteto Ramón Gutiérrez, autoridade no tema do patrimônio missioneiro, que é meu mestre e amigo, me convidou para organizar na UFRGS o Terceiro Seminário sobre o Território das Missões Jesuítico-Guaranis: povoamento, produção e desenvolvimento científico. O desenho das crianças foi proposto como imagem para divulgar o seminário que ocorreu em 22 e 23 de agosto. Foi um evento público e gratuito que teve a parceria da Fundación Bunge y Born e do IPHAN, entre outros. Foram dois dias de trocas e aprendizados entre palestrantes do Brasil, da Argentina e do Paraguai, profissionais da área de patrimônio cultural, estudantes da graduação e pós-graduação e, também, professoras da nossa Escola Projeto.  

Aquela distância em relação ao tema teve de ser superada. A Escola e a relação dos meninos com a experiência missioneira, como se reflete no desenho, terminaram mostrando que mais importante que a preservação do patrimônio material são as pessoas viverem e usufruírem esse legado, que deve continuar existindo por ser a evidência de uma tentativa para construir um mundo melhor.

(1) Luisa é mãe do Miguel e do Carlos Durán Braghirolli, do 3º ano da Projeto, arquiteta e professora da UFRGS.

(2) O referido desenho é resultado de um trabalho de 2018, em que as turmas de 2º ano ilustraram fatos ou marcas importantes das diferentes séries da escola para a Revista Por Dentro da Escola, uma publicação anual em que cada série ou turma colabora com alguma matéria. A revista de 2018 comemorava o aniversário de 30 anos da escola e o desenho do Miguel e sua colega ilustrava uma das saídas de campo do 5º ano, que, a partir do estudo sobre a Formação do Povo Rio-grandense, viaja às Missões.

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