Amamos Picasso, Monet, Rembrandt. Estudamos Van Gogh, Renoir, Klimt. No entanto, também queremos saber o que acontece na galeria de arte da esquina, o que dizem os muros grafitados nas ruas, o que criam os coletivos de arte da periferia. É assim, conectando a arte canônica e a arte do contemporâneo ao cotidiano do saber em sala de aula, que a Projeto pensa o trabalho com arte, como algo que provoca a interrogação, enchendo de inventividade o dia a dia dos estudantes.

“Entendo que devemos trazer para a escola qualquer tipo de arte ou de manifestação da cultura, desde as mais singelas, do ponto de vista do que o sistema da arte considera a ‘verdadeira arte’, até as mais complexas, mais reconhecidas, também chamadas de Arte (com maiúsculas), os cânones da história da Arte. Assim, chamo a atenção para o que entra (ou deveria) entrar na escola: a arte dos bordados, da costura, das colagens, da composição com materiais diversos, da palavra; também a arte do grafite – com seus artistas de rua estando dentro da escola, ensinando e aprendendo a linguagem do coletivo e dando voz a quem, por vezes, não a tem. Sim, os artistas com minúsculas, as bordadeiras, os indígenas com suas cestarias, as “fazedoras” de abayomis, entre tantas outras formas de manifestação da arte e de cultura, ao habitarem a escola, trazem vida a esse espaço que é formado, essencialmente, dela”, explica Deborah Vier Fischer, coordenadora geral pedagógica da Projeto.

Para além do estudo aprofundado da obra de um artista local a cada ano – citando apenas os últimos: Zoravia Bettiol, em 2016, Teresa Poester, em 2017, Mauro Fuke, em 2018, e, este ano, Ana Flávia Baldisserotto -, a Projeto continuamente mantém as “antenas” bem ligadas ao que acontece no entorno e é por isso que, seguidamente, as famílias são informadas, via agenda, que mais uma visita a alguma exposição na cidade ou outro evento de arte está sendo agendado, e que a escola dele participará.

Só neste ano, as crianças já estiveram na Casa Musgo, na Galeria Bolsa de Arte, no espaço do Farol Santander, no MARGS, no Centro Cultural Erico Verissimo, no Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, para oficinas de fotografia na lata, e já receberam artistas de diversos coletivos, já tiveram aula de arte de rua e iniciaram o estudo para pintar os muros da escola, como acontece anualmente, com a parceria de Cauan Rolim Ferreira, por exemplo. E, em ano de Bienal, pode anotar aí que nossas turmas estarão atentas aos espaços expositivos e artistas, conversando e dando opiniões sobre algumas obras, em especial. 

“Na Escola Projeto, prestamos muita atenção aos movimentos da arte e da educação, no sentido de aproximá-los, de trazê-los para perto, hibridizando-os e criando outra coisa, que pudesse, quem sabe, ser chamada de uma atitude artística, talvez, uma atitude artista. E o que seria isso? Uma atitude menos prescritiva e mais inventiva, menos controladora e mais aberta aos imprevistos, à possibilidade de nos fazermos perguntas ainda não feitas, elaborarmos materiais e produções ainda não realizadas”, complementa Deborah.

Fazer isso de mãos dadas com a família é outro diferencial da Projeto, que convoca pais, mães, avós e irmãos e irmãs para os encontros com os artistas. Foi o que aconteceu no final de agosto, quando Ana Flávia foi à escola conversar com a equipe pedagógica e familiares, falar dos seus trabalhos e compartilhar ideias.

Para fechar o ciclo, é interessante ainda acompanhar como essas vivências chegam aos próprios artistas.

“Não são poucos os relatos de artistas que visitam a escola e que saem impressionados com a profundidade das produções das crianças, que vão além, em algumas situações, da proposição inicial do artista. Lembro de Maria Tomaselli, em 2004, quando disse, após um momento de produção com uma turma de educação infantil: ‘essas crianças pensaram na minha obra de um jeito que nem eu havia pensado’. Ou quando Teresa Poester, ao sair de uma oficina com turmas de ensino fundamental, em 2017, comentou: ‘eu adorei a ideia do meu trabalho ser pensado como ‘rabisco com penso’, diferente do rabisco pelo rabisco, ou da riscalhada, como algumas crianças me falaram’”, lembra Deborah.

E aí, ficou curioso para acompanhar mais? Pois a escola, atualmente, encontra-se num ápice de efervescência. Agora em setembro, as proposições de Ana Flávia estão começando a invadir as salas de aula com inspirações para as crianças; o nosso artista parceiro, Cauan Rolim Ferreira, está trabalhando no projeto de pintura dos muros com as turmas de 5º ano, que sempre têm a tarefa de deixar arte em grafite como despedida da escola; uma oficina todas as segundas-feiras, o Ateliê da Projeto, vai propor experimentações extraclasse com tapeçaria, arte de rua, colagem e escultura para as crianças; e, ainda, há um projeto novo em que a escola está se inserindo, juntamente com alunos e alunas do Anexo do Instituto de Educação, que prevê coleta e produção com materiais que a natureza descarta durante a Primavera, dentro de um estudo maior, chamado “Primavera/Outono – Brasil/Espanha”, em parceria com a Universidade de Lleida (Espanha), coordenado pelo artista Antônio Augusto Bueno e a nossa coordenadora Deborah Vier Fischer. Não é demais? 

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