Ilustração: Jihyeon Lee

Celso Gutfreind (*)

A infância é uma obra aberta em vida. Podemos adentrá-la, como tema, de diversas e infinitas formas. Infância não termina no adulto. Uma porta interessante, senão a mais, é a poesia.

Dos poemas que me ocorrem sobre ela, intitulados com o seu próprio nome, um dos que mais me impactou é o de Mário Pirata:

Infância

“Um tiro

de funda

na bunda”

Impacta-me pela capacidade do poeta de olhar a infância pelo outro lado, longe de uma utopia ou visão idílica (e falsa), a que estamos acostumados, no olhar de pais e cuidadores.

A infância brinca, mas também dói, e o poeta o expressa de forma lúdica.

Uma infância também dói muito, e foram necessários séculos para que um estudioso gritasse que o rei da infância estava nu, e que ela vinha sendo vestida por adereços que só cabiam no narcisismo desses pais e cuidadores. A infância que gostaríamos para nós, e não a que temos de enfrentar, por fora e por dentro.

Como poeta e psicanalista (da infância), sempre sonhei fazer um poema à altura desse do Mário, ou seja, que a colocasse em seu devido lugar. Um poema exato. Humorado. Realista, afinado, entre as alturas de um sonho e o poço de um sofrimento.

E como lidar com a infância sem poetizá-la?

E como lidar com ela sem compreendê-la.

Anos depois, saiu a minha tentativa:

A infância:

“O dia em

Companhia

Da palavra

Desamparo”

Influenciado, com angústia (infantil), pelo Mário, tentei caminhar nesse terreno, sem cair na armadilha do idílio ou da utopia, reconhecendo que uma infância brinca, mas é tomada pelo medo, diverte-se, mas é acompanhada pelo desamparo. Em meio ao imaginário, a realidade.

Que a infância não é desprovida de sexo (Freud).

Que a infância não é pura (escute-se atentamente uma criança).

É preciso passear pela infância com uma disposição de brincar e vincular-se, esquecido das explicações. Mas, sem compreender o seu lado só, sombrio e desamparado, não poderemos oferecer o antídoto mais eficaz até hoje encontrado para que uma infância encontre o tom desejado entre passar e permanecer: ritmo, poesia, palavras capazes de iluminar para sempre o que, um dia, foi sombrio, mas soube transformar-se em arte viva da mais pura criatividade humana.

(*) Pai de ex-aluna, psicanalista da infância e escritor.

Referências:

O poema Infância, de Mário Pirata, está em Calcinha Rosa na Cadeira de Balanço, Editora Tchê!, 1988.

O meu poema A Infância está em Tesouro Secundário, Ed. Artes & Ecos, 2017.