O professor Luís Augusto Fischer, pai de dois alunos nossos, o Benjamim e a Dora, escreveu um texto muito emocionante sobre a experiência vivenciada por ele, a mulher e as crianças no último Sábado Cultural aqui da escola, com a Orquestra Villa-Lobos, e as reflexões que essa vivência suscitaram sobre a situação do nosso país, em sua coluna do jornal Zero Hora do dia 1º de julho de 2017. 

O texto é tão inspirador que decidimos compartilhar aqui. Leia e se emocione também:

 

Pode ser melhor

Professor de literatura da UFRGS, Luís Augusto Fischer conta como uma apresentação da Orquestra Villa-Lobos o fez refletir sobre a situação do país. “Uma aula de beleza, de fazer chorar de alegria”

Por: Luís Augusto Fischer
01/07/2017

Esses dias, passei uma hora com o choro trancado, ali, na garganta. Solucei discretamente meia dúzia de vezes, mas a vantagem é que era no escuro, um teatro em pleno espetáculo, de forma que o vexame foi pouco. Ao lado estava a patroa, que me conhece e admite que chorar faz parte.

(Nelson Rodrigues afirmou que, quando ia conhecer alguém, tratava de saber se o sujeito chorava. Era fundamental chorar, dizia ele. Subscrevo, não apenas em causa própria: o sujeito que chora exercita uma das grandes capacidades humanas.)

De que chorava eu?

Ainda não vou dizer. Preciso acrescentar que, na saída do espetáculo, cruzo com meu amigo Miguel da Costa Franco, que verbaliza o que eu também pensei, exatamente: “O nosso país podia ser melhor…”. Tirou daqui, da minha garganta, as palavras: eu segurei o choro exatamente de beleza, da beleza que eu vi e naquela que eu estimei, como o Miguel, ser um potencial aberto para tanta gente.

Agora começo a explicar: era um espetáculo da Orquestra Villa-Lobos. A promoção foi da escola onde estudam meus filhos, a Projeto, e o local era a Amrigs. No palco, umas poucas dezenas de jovens artistas que, não fosse pela orquestra, certamente teriam destino menos feliz, e talvez mesmo estivessem nas complicadas ruas do desvio e do desespero.

Essa orquestra é uma instituição nascida há 25 anos, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Villa-Lobos. Escola pública, municipal, na Lomba do Pinheiro. Escola para gente da redondeza. Gente em geral com pouca grana e sem muitas opções, mas gente inteligente como o senhor e eu, e provavelmente mais trabalhadora do que muitos de nós, os que somos integrados ao mundo da beleza.

Digo “mundo da beleza” para dizer este nosso mundo das classes confortáveis, com as três refeições diárias, carro à disposição, plano de saúde, internet, Netflix, cinema, livros, museus, espetáculos. Esse mundo para quem Bach, Villa-Lobos, Beatles ou Milton Nascimento são possibilidades imediatas.

Eu já conhecia a orquestra. Tive a chance de ouvir, em solos inesquecíveis, um show de um ex-integrante, Vladimir Soares, o que de todos mais longe foi até agora, a Alemanha, onde estudou e agora leciona.

Mas nada se compara a ver aqueles garotos em ação agora, no meio da baixaria sem fim das elites políticas e econômicas brasileiras. Eles ali, sob a regência sábia de uma mulher de méritos extremos que é a professora e regente Cecília Rheingantz Silveira, mandando ver num repertório que – também ele – me levou às já citadas lágrimas.

Honrando o patrono da escola e da orquestra, um Villa-Lobos, O Trenzinho do Caipira. Flautas doces, que são o ponto zero da orquestra, mais cordas (violinos, violas e cellos), e, num atestado de que a inteligência não se micha para distinções triviais, dois outros naipes – um de instrumentos harmônicos (violão, contrabaixo, órgão, cavaquinho) e outro de percussão, aproveitando um conhecimento que o brasileiro traz na pele, para o samba e outros ritmos marcados.

O repertório apresenta pérolas da canção, como What¿s Going On?, de Marvin Gaye, e Com a Perna no Mundo, do Gonzaguinha. Tudo encaixado, tudo falando a língua daqueles a quem a educação pode (poderia) facilitar justamente a enunciação e a experiência direta da inteligência, proporcionando boa informação musical, letrada, científica.

Uma aula de beleza, de fazer chorar de alegria. Parabéns, membros da Villa-Lobos! Vocês são a prova de que o Brasil pode ser melhor.